17 de mar. de 2009

Raul e o início

Raul tinha apenas dois anos quando o avião em que viajava com seus pais caiu em plena selva amazônica. O bebê foi o único sobrevivente, por algum desses motivos que só as histórias fictícias podem explicar. Pois o fato é que Raul foi criado pelos índios da tribo Comunis, que nunca havia entrado em contato com o homem branco. As atividades da tribo consistiam em caçar, pescar e recolher frutas. Tudo o que era caçado, pescado e recolhido, diariamente, era colocado numa construção que ficava no centro da aldeia. As sobras eram aproveitadas no dia seguinte, e tudo pertencia a todos. A liderança, quase que de forma natural, era exercida pela pessoa mais velha, fosse homem ou fosse mulher.
Um dia, algumas semanas depois de completar 10 anos, Raul avistou vultos, ao longe, no Rio Anarquisis, que passava pelo centro da tribo, mas pensou tratar-se de algum animal estranho, ou alguma das muitas lendas que habitavam o cotidiano das palavras proferidas pelos membros mais experientes dos Comunis.
No dia seguinte, porém, no meio da manhã, enquanto pescava, ouviu um forte estrondo, algo que nunca havia sentido antes. Ao levantar a cabeça, viu que os vultos que ele havia visto no dia anterior estavam chegando, de barco, próximo à tribo, e que o estrondo vinha de um cano de ferro que um dos homens brancos carregava. Dois de seus companheiros haviam tombado ao chão, ensanguentados. Os Comunis corriam de um lado para outro, em desespero, sem entender o porquê daqueles “deuses” estarem agindo dessa maneira. Raul, entretanto, permanecia imóvel, talvez porque seu interior, de certa forma, já havia estado no meio daquela tecnologia.
Por um desses motivos que só a genética (e, claro, as histórias de ficção) podem explicar, Raul cresceu com a capacidade de entender o português. Um dos homens que estava no barco e havia atirado loucamente para todos os lados, disse:
-Então a lenda realmente é verdade! O filho da Família Burgo sobreviveu! Não é à toa que ninguém encontrou o seu corpo há oito anos atrás!
Um outro homem, que carregava uma grande cruz em seu peito, disse:
-Venha conosco, garoto. Vamos tirar-lhe deste estado de barbárie para lhe inserir na civilização.
Raul, sem saber exatamente o que fazer, deixou-se levar pelos homens, até porque os Comunis que não tinham sido mortos haviam fugido floresta adentro.
O garoto iria conhecer a “civilização”, iria conhecer o mundo, e nunca mais veria os Comunis. Os outros que estavam no barco não entendiam por que o garoto continuava o tempo todo, dentro do barco, virando-se para trás e com lágrimas nos olhos.


Este é o primeiro capítulo da saga de Raul, o primeiro personagem criado por este blog. A história de Raul, seus questionamentos e suas dúvidas acerca do mundo vocês irão conhecendo aos poucos, em meio às postagens normais do blog.
E viva a sociedade alternativa.

11 de mar. de 2009

Hasta lunes

Na busca de inspiração, de novas idéias e de uma pele um pouco menos branca (mentira), este que vos fala parte em férias por um longo e quase eterno período de cinco dias. Levo comigo livros de Gabriel García Márquez, músicas do Raul e dos Beatles e todos vocês em meu coração (oh, que bonito!).
Enquanto isso, gostaria de receber sugestões dos nobres leitores sobres posts futuros. Como está o blog? A linha que está sendo seguida nos textos está legal, ou querem alguma mudança no modo de escrever? Deixem suas sugestões nos comentários deste post ou, se tem alguma sugestão que gostariam de me deixar de modo “particular”, escrevam para o jp_deluca@yahoo.com.br. Sério, escrevam mesmo. Quero muito receber sugestões.
E para não deixa-los abandonados nos próximos dias, eu vos brindo, para quem ainda não viu, com um dos momentos mais geniais do jornalismo brasileiro: o Direito de Resposta de Leonel Brizola à Rede Globo, em 1994:

http://www.youtube.com/watch?v=ObW0kYAXh-8

3 de mar. de 2009

Não invistam no esporte

Tá, eu prometo que em breve eu coloco crônicas mais suaves, sobre a vida cotidiana e talz. Mas deixem eu fazer só mais um post crítico, ok?
Minha proposta aos empresários é: vamos deixar de investir no esporte, pois não dá retorno (atenção: estou fazendo esta análise sob a ótica de um empresário). Afinal, o que fazer quando você dá milhões de reais para patrocinar um time e o maior conglomerado midiático do país te boicota?
Como muitos dos leitores deste blog não acompanham de perto o esporte profissional, vou explicar para vocês do que se trata. É o seguinte: as Organizações Globo (a TV, principalmente), tem uma norma interna que PROÍBE a divulgação do nome de alguma empresa na equipe, substituindo-o pelo nome da cidade. O vôlei é o exemplo mais claro. As duas equipes de vôlei feminino mais tradicionais e que sempre disputam as finais no Brasil são a Rexona e a Finasa, mas a Globo as apresenta como Rio de Janeiro e Osasco, respectivamente. O atual campeão brasileiro de vôlei masculino, Cimed, virou Florianópolis. O futsal é um exemplo clássico: a Malwee virou Jaraguá, John Deere virou Horizontina, Cortiana virou Farroupilha, etc.
A RBS, afiliada da Globo nos dois estados mais ao sul do Brasil, mantinha os nomes “verdadeiros”, mas a Globo baixou a norma que agora é lei para todas as suas afiliadas e também para as redes de tv a cabo, como Sportv e Premiere, por exemplo. O estopim, para os gaúchos, foi no Campeonato Gaúcho de Futebol desse ano, quando a Ulbra, “misteriosamente”, virou Canoas. A direção da universidade ficou furiosa com a nova política “global”, emitindo inclusive nota de repúdio no site, mas é aquilo né. Não pagou, esquece.
E o mais irônico dessa história toda é que a Globo e seus Galvões Buenos da vida, a cada Olimpíada que chega, faz uma campanha nacional clamando aos empresários para que invistam no esporte, quando ela própria boicota o nome destas empresas.

Sábado à tarde eu estava justamente dando início a este texto quando o sensacional blog Impedimento (lincado no canto esquerdo deste blog) publicou uma fantástica crônica sobre o assunto, de autoria de Luis Felipe dos Santos, a qual eu reproduzo na íntegra abaixo. Leiam toda, por favor. Vale muito a pena.
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O dia em que o Quilmes virou o time do Pato Donald

Grande alvoroço se instalou no bairro de Jacarepaguá com a notícia divulgada no final de 2012. Não, a Fifa não desistiu da Copa do Mundo, nem o governo resolveu acabar com a renovação automática das concessões. A questão é que o Quilmes, clube mais antigo da Argentina, derrotou o Vélez Sarsfield e tornou-se o quarto classificado argentino para a competição, disputando uma vaga na Pré-Libertadores.
Não era exatamente uma novidade, pois o Quilmes disputara uma Libertadores antes, protagonizando o lamentável episódio Desábato. O problema previsto por um executivo mais atento era o nome que os jornalistas da empresa global deveriam dar ao clube. Vigorava desde 2007 a ordem de que clubes com nomes de empresas deveriam ser chamados apenas pelo nome das suas cidades. Malwee virou Jaraguá, Cimed virou Florianópolis, Ulbra virou Canoas. Ninguém entendeu lhufas, protestos aconteceram aos montes, mas a empresa seguiu irredutível na sua cruzada contra o merchandising.
Só que em 2013, a cerveja Quilmes era uma marca bastante conhecida entre as bebidas importadas e nacionais. O mercado das cervejas de litro estava se expandindo e a Quilmes era uma das opções mais aceitas. Um dos executivos achou que, por ser a empresa argentina, nada demais aconteceria.

Qual o quê. O departamento de marketing da emissora foi informado pelos espiões de sempre. Quilmes não era um nome aceitável. E o contrato milionário com a outra distribuidora, como ficava? O departamento reuniu-se com o jornalismo para decidir renomear o clube.
- Pois bem, ficamos sabendo que o Quilmes jogará a Libertadores. A partir de agora, o clube será chamado pelo nome da sua cidade.
- Buenos Aires?
- Isso.
Correram os jornalistas para atualizar suas pautas. No dia seguinte, choveram emails para a empresa. Ora, não havia um clube chamado Buenos Aires. Ora, o clube que era denominado Buenos Aires era o Quilmes. Ora, o Quilmes NÃO FICAVA em Buenos Aires!
- Como assim? - perguntou o big boss.
- Chefe, o Quilmes é da província de Buenos Aires, apenas. Fica na cidade de Quilmes.
- Droga! Eles já se classificaram para a fase de grupos?
- Ainda não, precisam ganhar do Estudiantes de Mérida em casa.
- Hm. Então ignorem esse jogo. Vamos esperar o resultado.
Assim cumpriram os jornalistas. Não se viu na TV ou na internet qualquer referência ao jogo, que acabou com vitória de 5×1 do Quilmes em casa. Saiu o sorteio da segunda fase e cumpriu-se o horror: O Quilmes, por ser o pior argentino no ranking da Conmebol, não foi cabeça de chave. Acabou caindo no mesmo grupo do Flamengo. DO FLAMENGO!
Convocada reunião urgente.
- Ok, temos que decidir que nomes vamos dar ao Quilmes. Não pode ser Buenos Aires por que a cidade é Quilmes. Que outras opções temos?
- Bom - disse um jornalista entendido - o nome é Quilmes Atlético Clube, foi fundado em 1887, o apelido é
El Cervecero, o estádio é o Centenário.
- Já temos três opções. Atlético Clube,
Cervecero e Centenário.
- Nenhuma possibilidade de chamar pelo nome certo?
- Temos que manter a coerência.
- Tudo bem - disse o chefe de jornalismo - eu sugiro Atlético Clube.
Cervecero pode causar problemas com a legislação que impede propagandas de bebidas alcoólicas, e nunca chamamos um time pelo nome do seu estádio.
- Que assim seja - disse o executivo, mais aliviado.
Assim foram ao campo Flamengo X Atlético Clube. Não foi muito complicado, embora os protestos e as gozações das outras emissoras. O problema aconteceu no returno do grupo. O Flamengo enfrentava o Atlético Clube na última rodada do returno, disputando classificação, jogo da TV. Numa quarta-feira - no domingo anterior, jogava o Brasileiro contra o Atlético Mineiro; no domingo posterior, o Atlético Paranaense.
No domingo, o executivo chefe chamou uma reunião extraordinária com o jornalista entendido e o chefe de jornalismo. Quando todos chegaram, reproduziu várias vezes teipes diversos dos programas da emissora.

“O Flamengo está preparado para enfrentar o Atlético Mineiro, mas sem deixar de pensar no Atlético Clube e no Atlético Paranaense”
“O treinador do Flamengo mostrou que jogará com reservas para enfrentar o Atlético.
- Vamos com reservas para enfrentar o Atlético, pois precisamos de força total para jogar contra o Atlético”
“O Flamengo está certo ao priorizar o Brasileiro. Vamos ver como vão se portar os jovens contra o Atlético. A idéia mesmo é vencer o outro Atlético, o Clube”

Entre outras tantas.
- Vocês conseguiram entender quem enfrenta quem?
- Deveriam diferenciar os Atléticos Mineiro, Clube e Paranaense - disse o chefe de jornalismo.
- Isso é evidente. Só que ninguém consegue entender nada. Chovem emails para a redação perguntando qual dos três atléticos é o clube.
- Mas não são todos clubes? - perguntou o jornalista entendido, louco para queimar o chefe.
- EXATAMENTE! Temos que mudar imediatamente esse nome. Tudo indica que o Quilmes vai passar para a próxima fase. Ainda dá tempo.
- Bom, opções não temos muitas…o departamento jurídico certamente vetará o “cervejeiro”.
- Dá para tentar!
Duas horas depois, chega um parecer do advogado de plantão.
“Considerando (…) ponderando (…) observamos que a denominação “cervejeiro” para uma equipe de futebol, além do inusitado, contém uma possível infração legal caso o time dispute jogos a ser transmitidos antes das 22h. É o parecer”
Não dava mesmo. Ficaram os três analisando por mais uma hora a história do Quilmes e todas as suas características. Chegaram na camiseta, que continha o distintivo do clube.


- Olha ali - disse o executivo - podemos dizer o que existe no distintivo.
- Aquilo é um QAC.
- Então. Vamos chamá-lo assim.
Primeiro jogo da segunda fase. Como estava previsto, o Quilmes (QAC) enfrentou novamente o Flamengo. Dada a importância da partida, escalaram o melhor narrador da empresa. Quando chegou o roteiro, imediatamente ele protestou.
- O nome do time é esse mesmo?
- Ordens da direção… - respondeu o contínuo.
- Produtor! Que diabo de time é esse? Não era “Atlético Clube”?
- Não é mais, segundo a direção determinou. Parece que é para não confundir com os outros Atléticos.
- Tá, e daí eu vou chamar o time de QUAC? Por acaso o treinador é o Donald e o dono é o Tio Patinhas?
- Não é QUAC, é CAC. Q sem U é pronunciado como C, segundo o nosso revisor.
- Ah, tá bom.
Começou o jogo no Maracanã. É claro que o narrador chamou o time de QUAC o tempo todo, enfrentando as ordens do revisor. O que ninguém imaginava era a proporção disso. Em fóruns, no Orkut, nos blogs, nas emissoras concorrentes e nas rádios, o jogo do Flamengo contra o “QUAC”, o time de “patos”, virou a principal piada da semana. O Flamengo conseguiu um resultado pouco confortável, 1×0 - no dia seguinte, a interjeição animal utilizada pelo narrador já era capa do Olé.
“Brasileiros acham que Flamengo ganhou do time do Pato Donald” - era a manchete.
É claro que os hermanos se ofenderam. Para a quarta-feira seguinte, armaram uma guerra no estádio Centenário. Vestidos com máscaras de patos, levando patos para a arquibancada, cuspindo, ofendendo e jogando foguetes nos brasileiros, os argentinos reagiram à sua maneira. O narrador escalado foi outro, que dessa vez não deixou escapar a ordem do revisor. Claro que a dificuldade fonética mudou o nome da equipe para CÁQUI, a cor, e alguma interjeição patolina acabou escapando em meio à transmissão.
O Flamengo não resistiu à guerra. Perdeu por 2×0 - o Quilmes tinha um time bom - e aumentou a piada a níveis estratosféricos. No estádio, os argentinos inventaram um novo canto:
Soy de la banda del cervecero
El decano de Argentina
Se nosotros somos patos
Ustedes son gallinas

Para horror dos executivos de Jacarepaguá, o próximo adversário do Quilmes na Libertadores era o Botafogo - e o mesmo narrador, inventor de todo o problema, seria escalado para o Engenhão. Mais uma vez, os erros foram repetidos, levando os produtores à loucura.
“Lá vem o QUAC com a bola…”
“O QUAC está fazendo duas linhas de quatro”
“gooooooooooooooooooooooooooool do QUAC”
O jogo acabou empatado em 1×1. No vestiário argentino, o treinador do Botafogo praticava avançadas técnicas de hipnose em um centroavante quando ouviu um estampido na porta. Era o executivo da grande rede de televisão.
- Só vim dizer uma coisa. GANHEM ESSA MERDA. Ganhem desse time desgraçado. Eu não vou ter que agüentar uma final de Libertadores sem saber dizer o nome do time. Não vou. Ganhem desses filhos da puta. Pelo Brasil!
Com a mesma celeuma armada em campo, o Botafogo foi heróico e conseguiu uma vitória por 1×0. O QUAC poderia ser esquecido para sempre.
É claro que o apelido pegou. Além de “los cerveceros”, os torcedores do Quilmes começaram a ser chamados de “los patos”, e a direção do clube resolveu trocar o distintivo no ano seguinte - usando a inscrição “Quilmes” inteira, não apenas QAC. O caso ganhou repercussão mundial e foi citado em tom de chacota por várias revistas internacionais.
Aquele executivo foi mantido, por seguir à risca a coerência editorial da empresa. O problema é que logo depois, começou a Copa Sul-Americana, onde jogava o Sporting Cristal - patrocinado pela cervejaria peruana de mesmo nome. Foi marcada outra reunião extraordinária.

Luis Felipe dos Santos.

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E o mais triste disso tudo é ter a certeza quase absoluta de que não vai adiantar nada a reclamação das empresas torcedores, enfim. E o esporte brasileiro, já escasso em termos de patrocínio, vai perdendo cada vez mais estes poucos investidores.
Por isso, sugiro: não invistam em esporte. Invistam em algo mais rentável como, por exemplo, o meu mestrado. Prometo que não faço boicote algum, e divulgo o nome da empresa por completo. Se for uma empresa de ônibus então, já tenho até o uniforme.

26 de fev. de 2009

Pequeno texto sobre a esperança (ou a falta dela)

Nem só de Carnaval vive o Rio Grande do Sul em fevereiro de 2009. Além de promover festas onde ninguém é de ninguém, aumentar o faturamento da Skol, entre outras atividades, nosso estado também ocupa-se em destruir o único movimento social que resta no país.
Como vocês já devem ter ouvido falar, o Ministério Público ordenou o fechamento das escolas itinerantes do MST. Estas escolas são montadas nos acampamentos dos sem-terra. Lá, além de matérias normais, os alunos aprendem sociologia, filosofia, e principalmente, noções de cooperativismo, vida em sociedade, igualdade, etc. O Superior Tribunal de Justiça ordenou o fechamento imediato destas escolas porque nelas as crianças estariam aprendendo conceitos radicais e sofrendo “lavagem cerebral” das idéias do MST, que, para a grande mídia, são: roubar, invadir, quebrar e destruir, não necessariamente nesta ordem
A escola itinerante do MST em São Gabriel já foi fechada. As crianças que estudavam lá serão encaminhadas para escolas estaduais, ou seja, entrarão em processo de alienação e dentro de alguns poucos anos não irão querer viver nos acampamentos, sentirão vergonha de usar o boné do MST e abandonarão os pais para ir trabalhar em alguma metalúrgica ganhando R$ 550,00 por mês. A próxima deverá ser a escola de Veranópolis
Pois é. O Rio Grande do Sul, logo ele, o estado dito mais culto-politizado-educado do país está acabando com os movimentos sociais, está sucateando a educação, enfim. Nossa governadora está conseguindo tudo a que se propôs. Aliás, nem seu marido a agüenta mais, tanto que pediu o divórcio.
A falta de esperança e o desânimo são tão grandes que não dá mais vontade de escrever.


Ainda bem que acredito nas Flores.

10 de fev. de 2009

A taça do Oscar não é nossa

No dia 22 de fevereiro, acontece mais uma edição do Oscar. Sei que a maioria dos que lêem (oi, Reforma Ortográfica) este blog não usam este prêmio como parâmetro na hora de escolher um filme, afinal de contas existem muito mais coisas entre o cinema e aquele tapete vermelho do sonha a nossa vã filosofia. Da minha lista de filmes favoritos (que encontra-se anexada no meu orkut), a grande maioria não chegou nem perto de receber a tal estatueta. Mas a idéia deste post é discutir um fato: o porquê do cinema brasileiro contemporâneo não ter ganho um Oscar.
Será que nossos filmes são tão ruins que não alcançaram mais do que três indicações a melhor filme estrangeiro? Sabemos que o Brasil está de costas para o restante da América Latina, mas acredito que diversos filmes nacionais são tão bons quanto uma competente produção argentina ou mexicana. Então, por que o preconceito da Academia?
Pois na década de 60 alguns senhores chamados de Militares chegaram ao poder no Brasil. Como fazer cinema era coisa de subversivo e poderia incitar a “pensamentos maléficos” sobre o regime que havia no Brasil, só passaram a ser permitidos no Brasil filmes com o intuito de “distrair” o povo. Foram aí que surgiram as “comédias pastelão”, protagonizadas pelos Trapalhões, Mazarópi, entre outros. E também foi aí que se expandiu a face mais baixa do cinema brasileiro, e que ainda hoje nos custa caro “lá fora”: a pornô-chanchada. Tratava-se de filmes pornográficos no real sentido da palavra, sem um mínimo de história, roteiro ou algo parecido, e que caracterizou o cinema nacional por diversos anos, quiçá décadas. Ainda hoje, a pornô-chanchada causa problemas à visão que os críticos estrangeiros tem do cinema nacional. E deveremos levar muito tempo ainda para nos recuperarmos.
Mas nós sabemos que o cinema brasileiro tem qualidade, e é por isso que na próxima vez que formos à locadora, vamos dar uma olhada com mais cuidado na prateleira “nacionais”, não é mesmo? E se você ainda não se convenceu, aí vão três “Made in Brazil” que você precisa ver: Abril Despedaçado, O ano em que meus pais saíram de férias e O cheiro do ralo. Sejamos bairristas, por um bom motivo. Ou se você acha que o cinema não é um bom motivo para se orgulhar do país, então, sei lá. Assista Brasil x Itália com Galvão Bueno narrando.

Parece cinema argentino, mas é O ano em que meus pais saíram de férias

Pois eis que vou tirar uns dias de folga. Sim, mas antes que vocês entrem em depressão profunda, percam a razão de viver ou chorem compulsivamente, fiquem sabendo que estes dias serão curtos, pois segunda-feira já estarei de volta. Até lá, espero que este post tenha uns 200 comentários, no mínimo.
Comportem-se, mortais trabalhadores.

6 de fev. de 2009

Os Cegos do Castelo e nós, os Azarados

É o assunto “pop” do momento, até porque a Globo abraçou a causa, mas tudo bem, eu vou falar também. É o tal do Castelo.
Para quem não sabe do ocorrido, o deputado Edmar Moreira, do (surpresa!) Democratas de Minas Gerais, partido mais conhecido pela sua abreviatura (DEMO), foi eleito nesta semana corregedor da Câmara dos Deputados, o cara que fiscaliza os colegas, dá bom exemplo, etc e tal. Pois descobriram que o cara tem, em Minas Gerais, mais precisamente, no interior do interior do estado, um castelo de verdade, avaliado entre R$ 20 e R$ 25 milhões. Seria algo como se alguém tivesse um castelo em, sei lá, LINHA POMPÉIA, interior de Coronel Pilar.

De fazer inveja até ao Rei-Sol

Além disso, parece que o deputado tem problemas de sonegação de impostos trabalhistas, entre outras coisas. O “imóvel” não foi declarado nas últimas eleições, e segundo o deputado, não o foi porque o castelo foi dado a seu filho. Ah, completando a história, a cidade onde foi construída a pequena casa é governada pela mulher do deputado.
A Globo, desde ontem à noite, bateu sem parar na questão, acusando veementemente o deputado, manipulando a opinião pública de modo avassalador. Como agora o Chaves não passa mais às 7 da manhã, sou obrigado a tomar café assistindo ao Bom Dia Brasil, tele-jornal que também malhou exaustivamente o deputado. Alexandre Garcia era um dos mais exaltados, humilhando e destruindo com toda e qualquer moral que podia existir ao deputado.
Pois bem. Claro, sabemos que o deputado é culpado, afinal, basta ver seu jeito de falar e sentimos aí que ele está incorporando ACM na veia. A grande questão é: por que cargas d’água SÓ AGORA essa história veio á tona? Será que o deputado não cumpriu algum acordo que havia feito à tempos atrás com a dita emissora? Ou será que de uma hora para outra a Globo resolveu montar em seu cavalo e sair a liderar a “Cruzada pela Verdade Absoluta”? O Castelo foi construído na DÉCADA DE 80. Será que ninguém nunca o havia visto antes? Mais indignante do que o próprio fato em si é essa hipocrisia da imprensa. Não se iludam: é tudo farinha (de joio) do mesmo saco.

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Sei lá, às vezes eu acho que o Brasil está condenado para sempre a ser essa fonte de corrupção, mau-caratismo e alienação. Acho que nós somos um povo azarado, não adianta.
No mesmo dia em que a “Questão Castelo” veio à tona, era enterrado no Rio Grande do Sul o deputado federal Adão Pretto, um dos poucos na Câmara Federal a defender as causas dos movimentos sociais, como MST, Via Campesina, entre outros. Filho de agricultores, lutava, muitas vezes inutilmente, contra a maior bancada do Congresso, formada pelo bloco dos grandes fazendeiros e latifundiários. Morreu prematuramente, vítima de pancreatite. Os movimentos sociais estão ainda mais sozinhos e isolados. Vai ver, somos azarados mesmo e não há lei ou plano que possa mudar isso.

3 de fev. de 2009

Você APÓIA essa IDÉIA?

Como todos sabem (ou devem saber), desde o dia 1º de janeiro do ano da graça de 2009 está em vigor no Brasil, em Portugal e outros países de quem a mídia nunca fala a nova ortografia do idioma português, ou simplesmente a reforma ortográfica.
Não vou aqui explicar quais são as principais mudanças, até porque todos nós já eestamos enjoados de saber disso. Queria discutir o porquê desta mudança.
A idéia é “unificar” o idioma português, usando a mesma escrita tanto no Brasil como em Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Timor Leste. Pois eu questiono: por quê? Não seria mais importante mantermos as nossas diferenças? Será que assim não estamos abrindo mão de características peculiares do nosso “português brasileiro”?

Jamais te esqueceremos, amigo.
Sinceramente, não vejo necessária uma mudança como esta, em pleno 2009. Acho que, muito mais importante do que tentar mudar a forma de se escrever, é fazer com que as pessoas escrevam direito. Temos milhões de analfabetos, e dezenas de milhões de analfabetos funcionais, aqueles que não entendem o que LÊEM (pega no meu circunflexo). Não seria melhor que todos estes milhões pudessem ter a capacidade de realmente compreender e interpretar o que estão lendo? Ah, pois é, melhor não, pois senão eles terão a capacidade de pensar, e irão ameaçar a ordem e o progresso nesta nação com políticos tão competentes que elegem um dinossauro para presidente do Senado.
Em Portugal, a reforma ortográfica também não foi muito bem vinda. Em uma entrevista que vi recentemente em uma emissora que não lembro qual era (acho que, desgraçadamente, era na Marinho’s Family), três “intelectuais” portugueses criticavam as novas regras, acusando-as de estarem “abrasileirando” o português. Ué, mas eles não “abrasileiraram” Portugal com nosso ouro?
Bom, mas não adianta chorar pelo leite com Nescau derramado. Até 2012, teremos de estar em dia com as novas regras, pois só elas é que irão valer em concursos, vestibulares e leis. Creio que até lá iremos conseguir compreender porque um país quer escrever diferente antes de escrever direito. E, oxalá, possamos também entender que O VOVO VOOU NO VOO 001 é uma frase, e não um código binário.

27 de jan. de 2009

Paralelas que se cruzam em Belém do Pará

Começou de forma oficial hoje, em Belém do Pará, a nona edição do Fórum Social Mundial. Como todos já sabem (ou deveriam saber), o Fórum surgiu em 2001, sob o lema “Um outro mundo é possível”, com a idéia de fazer um contraponto ao Fórum Econômico Mundial, realizado todos os anos na chiquéééérima Davos, na Suíça (uma Gramado com grife), onde chefes dos estados mais ricos do mundo reúnem-se em mesas de mármore para beber dos vinhos mais caros, tragar os charutos mais sofisticados (CU-BA-NOS), e saborear pratos que eu e você não conseguiríamos soletrar. Em meio a isso, discutem as melhores maneiras de se manter o sistema neoliberal e manter a riqueza de seus países. Obviamente, só os mais ricos participam. Vez ou outra, convidam o presidente de algum país pobre, como por exemplo, sei lá, Brasil, para dar uma palestra e deixar todos fascinados, sem que isso, é claro, diminua as barreiras comerciais e alfandegárias que eles impõem a estes países subdesenvolvidos.

"Que tal aquele Cabernet de ontem?"
Bom, mas o assunto do post é o Fórum Social, e não os bacanas que estão no país mais neutro do mundo. O tema deste ano do Fórum Social, pasmem, é a economia, afinal, o sistema neoliberal, como nós estamos vendo, está se afogando em sua própria piscina, e é preciso discutir alternativas para o que virá daqui para frente.
Entretanto, seria muita hipocrisia realizar um Fórum Social Mundial na Amazônia sem discutir a questão indígena. Obviamente, este problema será um dos assuntos mais abordados, devendo contar, inclusive, com a presença de dezenas de tribos da Amazônia, as quais tiveram transporte gratuito até o Fórum. E é preciso que se discuta muito a fundo, realmente esta questão. Afinal, não bastasse estarem sem a terra que a eles lhe pertence, os indígenas estão sendo encurralados cada vez mais, em áreas restritas da Amazônia. Felizes das tribos que nunca tiveram contato com o homem branco (se é que alguma ainda teve essa sorte).
Talvez a idéia de trazer as tribos seja apagar um pouco do vexame que o Brasil deu ao mundo na “comemoração” dos 500 anos de descobrimento (sic) do Brasil, em 22 de abril de 2000. Naquele dia, tribos indígenas foram espancadas e expulsas das festividades em Porto Seguro, as quais, obviamente, eram restritas apenas ao homem branco, civilizado e responsável por trazer a luz e a ordem a este eldorado imerso no pecado.

"Nós deram espelhos, e vimos um mundo doente..."

Deverão participar do Fórum os presidentes símbolo da nova corrente política que se espalha pela América Latina com a vontade do povo, e que espalha medo pelas Vejas da vida: Hugo Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correa, do Equador, e Fernando Lugo, do Paraguai, além de outros esquerdistas mais teóricos, que são (eram) desta corrente: Lula, do Brasil, e Michele Bachellet, do Chile. A imprensa, lógico, tratou logo de qualificar o Fórum como “um encontro de esquerdistas/loucos/ditadores/malvados. Sem querer me estender muito, fico na esperança de que novas idéias, novos mundos, realmente surjam da beira da foz do Amazonas.
E é uma pena, uma pena mesmo, que Porto Alegre não receba mais o Fórum. Me arrependo imensamente de não ter ido em alguma das edições que aconteceram na terra de Ronaldinho Gaúcho. Espero que, em breve, a capital volte a receber uma edição do evento. Se isso acontecer, estarei lá com minha barraca, com certeza. Enquanto isso, só nos resta torcer que a turma que está reunida na terra do Mercado Ver-o-Peso consiga buscar alternativas ao sistema que está apodrecendo. Afinal, não nos fizeram acreditar que outro mundo é possível?

24 de jan. de 2009

Na falta de um cinema, vamos de DVD mesmo

Bom, já que hoje é sexta-feira, é final de mês, estamos todos duros e quase sem recursos para fazer algo mais SOFISTICADO no findi, resolvi fazer um post de utilidade pública e falar um pouco sobre os últimos filmes que andei assistindo. A maioria são coisas boas, mas na última quarta-feira, tive um surto e senti uma vontade INCONTROLÁVEL de locar um filme comercial, como vocês verão num dos relatos abaixo.

O Banheiro do Papa – Já citado por inúmeras vezes neste blog e tema, inclusive, de um post (olha aqui ó: http://paposchatos.blogspot.com/2008/08/o-banheiro-do-pan.html), O Banheiro do Papa está disponível em Garibaldi para locação na Vídeo.com. Claro que, quando vi o dvd lá, quase surtei, mas sim, ele era real. Só um detalhe: ele ta na prateleira das Comédias, mas tudo bem. Bom, mas sobre o filme, ele entrou no meu Top 3. É realmente tudo aquilo que falam. Não vou contar nenhum detalhe da película porque todos vocês PRECISAM assisti-lo. Mas El Baño del Papa é mais um prova que o cinema latino-americano é, sim, um dos melhores do mundo, fazendo filmes brilhantes com pouquíssimos recursos.


Capriche na pipoca
Sombras de Goya – Dica da Vivi, a dona da locadora, Sombras de Goya nos leva até o século XVIII para conferir os resquícios e o terror da Inquisição espanhola, uma das mais cruéis da Europa. Recomendo, até para observarmos as atrocidades cometidas pela Igreja Católica num passado não tão distante assim. Ah, um dos atores principais é Javier Barden, ou seja, a qualidade está garantida.

O Amor nos Tempos do Cólera – Baseado no excelente livro de Gabriel García Márquez, é outro filme excelente, a não ser que você não goste de drama e romance. O único detalhe imperdoável na película é o fato da história toda se passar na Colômbia, e o filme ser falado em... inglês! Ah, para os patrióticos: Fernanda Montenegro é uma das atrizes do filme. E dá show, obviamente.

Ensaio Sobre a Cegueira – FANTÁSTICO. PROFUNDO. IMPERDÍVEL. Isso basta para falar desse filme, baseado em um dos meus livros favoritos.


Juliane Moore puxa a fila de grandes interpretações em Ensaio Sobre a Cegueira

Hancock – Errr... Glup... Ta, sim, eu retirei Hancock, e daí? Sabe aqueles dias em que você precisa assistir um filme comercial? Pois estão, quarta-feira era um desses dias, e aí eu O FIZ. Pois Hancock é insuportável. Will Smith deve ser um robô, pois seus gestos, seus movimentos, seus roteiros são iguais em todos os filmes. Aliás, falando em roteiro, é o mesmo de todos os filmes de ação: um herói fodão, que passa por todo mundo e quase morre no final. Mas só quase, porque por milagre ele sobrevive. Ops, contei o final do filme! Bom, melhor assim, aí vocês não precisam retirar. Economizarão seu rico dinheirinho.

O Último Rei da Escócia – Sim, SÓ HOJE eu fui assistir O Último Rei da Escócia, filme sensacional com a MONSTRUOSA atuação de Forest Whitaker. Mas pó, antes tarde do que nunca, né?

"Ugandaaaaa!!!"

Então crianças, eram essas as dicas que eu tinha para o final de semana, quando a locadora deverá ser uma boa e barata companhia. Comportem-se e obedeçam os pais, senão o Tio Hancock vai joga-los até a estratosfera, viu?

20 de jan. de 2009

Ensaio sobre o clichê “o dia de hoje entra para a história”

Confesso que, após assistir um filme como Ensaio Sobre a Cegueira, fica-se realmente um tanto perturbado, pensando em certas coisas. Mas achei oportuno o momento, e o dia, afinal estamos todos “cegados” pelo efeito Barack Obama que vimos hoje, exaustivamente, na tv, na internet, e que veremos amanhã nos jornais impressos.
Pois o fato é que Barack Hussein (que ironia, hein Bush?) Obama entrou para a história hoje. Todos nós entramos. Daqui a dez, vinte, CINQÜENTA (Trema VIVE), cem anos, o dia de hoje estará presente nos livros didáticos como o dia em que os Estados Unidos empossaram o seu primeiro presidente negro da história. Todos nós estamos contaminados por um sentimento de euforia, de emoção, de esperança, enfim, por aquele clima que só existe no Reveillon. A mídia noticia aquilo que parece ser a salvação do mundo. Será assim mesmo?

lágrimas, tomara, só de alegria
Bom, vamos aos fatos. Os Estados Unidos estão em franca queda no seu poderio, enfrentando a segunda crise econômica mais grave de sua história. Ok, Obama é negro, é da “minoria” (apesar de ser rico), mas é bom lembrar que uma andorinha só não faz verão. É preciso atender a todos que estão presos, vitaliciamente, à esta imensa teia chamada Poder. Ora, o Brasil elegeu um operário, e não vimos por aqui uma nova Revolução Russa, apesar do “Eu tenho medo” (DUARTE, Regina, 2002).

boleragi

Certo, lá vem o Johnny pessimista, desprendido de seus sonhos de início de faculdade, para gritar “Não vai mudar nada! Nunca vai mudar!”. Não, também não é assim. Com certeza teremos mudanças, mas, na minha opinião, estão vendendo uma imagem do novo presidente dos EUA que ele não conseguirá cumprir, mesmo se quisesse. Afinal, os EUA continuam imperialistas (aliás, não gostei do Obama chamando seu país de América; perdeu pontos comigo), as restrições comerciais aos países do terceiro mundo (ou emergentes, né Elisa?) continuarão fortes, enfim. Os EUA continuarão sendo os EUA. Afinal, para nosso azar, Obama não é comunista.
Até onde eu sei, não come criancinhas.

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Ah, em tempo: George War Bush, já vai tarde. Esperamos nunca, jamais, ver a sua cara de novo, porco assassino, imperialista maldito, idiota ignorante.
Pronto, desabafei.

Tu não merece mais do que três linhas. ah, e apaga a luz. Kioto agradece.